1- Um garoto complicado

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“Eu não acredito que você foi demitido de mais um estágio, Filipe!”, foi a primeira coisa que eu disse naquele fim de tarde, ao chegar do trabalho e ver o meu filho de dezenove anos sentado em frente à TV, jogando videogame, acompanhado de refrigerante e Doritos. “Dessa vez não foi culp–“, ele tentou dizer, mas nem o deixei terminar: “Nunca é culpa sua!” Larguei a minha bolsa sobre o sofá, cruzei os braços e continuei: “Você precisa dar um jeito na vida! Não é mais um menino! Aceitei quando, em vez de faculdade, você quis fazer curso técnico, mas… e agora? Já está no penúltimo semestre do curso, precisa dum estágio pra ter o diploma… e já é a terceira oportunidade que você joga pela janela pra ficar jogando PlayStation!” “X-box One, mãe!” “Que seja…”, suspirei, me sentando no braço do sofá, desanimada. “O que houve dessa vez? Foi pego xerocando revista pornográfica de novo?” “Queriam que eu fizesse hora-extra! E a senhora sabe que nunca pagam hora-extra pros estagiários, né? E não era revista pornográfica! Era um shoujo que o meu am–” “Ah, faça-me o favor! Fazer hora-extra nunca matou ninguém! Você tem que fazer sacrifícios se quiser ser alguém na vida, Filipe!”, esbravejei, esperando alguma resposta dele, o que não aconteceu. Em vez disso, ele voltou a sua atenção para o joguinho. Desisti da conversa. Fui para o meu quarto, peguei algumas roupas confortáveis e segui para o banho.

Nós não passávamos por dificuldades financeiras: o meu falecido marido havia nos deixado aluguéis que ajudavam a equilibrar as contas; além disso, o meu salário como Analista de Recursos Humanos de uma grande empresa, na qual trabalhava há sete anos, não era ruim. Mas o meu marido havia morrido jovem e subitamente, e se algo assim acontecesse comigo, queria o meu garoto encaminhado… mas ele parecia não se esforçar muito para me dar essa tranquilidade.

Naquele cargo, eu conhecia todas as funções da sede e das filiais da empresa, assim como conhecia os rigorosos critérios de seleção… e o Filipe nunca se esforçaria o bastante para ser aprovado. Confesso que certa vez, assim que o Filipe começou o curso técnico, pedi ao meu gerente que lhe desse um empurrãozinho. “Você sabe que a nossa seleção, mesmo de estagiários, é complexa, Helena.”, ele disse. “O candidato é entrevistado pelo gerente do setor que pretende trabalhar, é analisado por psicólogo, faz dinâmicas de grupo e exames teóricos… Conseguir empurrá-lo em todas essas etapas seria impossível pra mim!” “Mas…”, insisti, depois de pensar um pouco, “mas o senhor acha que alguém pode me dar essa força, Senhor Brito?” “Bem… tem o Senhor Henrique, você sabe.”, disse o Brito, dando de ombros, referindo-se ao Gerente Geral. “Mas o Senhor Henrique vive em viagens, em reuniões… e nas poucas vezes em que dá as caras, está sempre apressado! Seria um milagre se ele me atendesse, porque nos reportamos ao superior imediato. E mesmo se aceitasse falar comigo… poxa… eu não teria coragem de pedir pra ele o que estou te pedindo.” O Brito reclinou-se na sua cadeira, simulou um ar pesaroso e encerrou o assunto: “Sinto muito. Não há nada que eu possa fazer. Mas há muitas empresas menos exigentes precisando de técnicos de informática, Helena. Não se preocupe.” Pensei comigo mesma que, se ele conhecesse o garoto, entenderia a minha preocupação. Depois disso, nas poucas vezes em que vi o Senhor Henrique passar perto da minha sala, com a sua enorme barba branca e barriga saliente, precisei me conter para não interromper a sua apressada caminhada e lhe falar do meu filho.

Terminei o banho e, enquanto me vestia, percebi algo caído atrás do sanitário: era uma das revistas indecentes do Filipe, e com as páginas grudadas. Saí do banheiro e o vi ainda sentado de costas para mim, atento ao videogame. “Não vai pro curso hoje?” “Vou sim, mãe, mas só mais tarde.”, respondeu, sem tirar os olhos da tela. “Faça como quiser. Só não volte a esquecer suas revistas no banheiro de novo, tá?”, bati a revista na cabeça dele, que ficou bem envergonhado ao ver com que fora atingido. Antes de ele se explicar, emendei: “Vou ver se peço ao Gerente Geral um estágio pra você. Ele deve ir no baile de fim-de-ano da empresa, então em poucos dias devo ter uma chance boa.” Ele ficou calado. Não sei se não gostou da ideia de trabalhar na mesma empresa que eu ou se ainda estava embaraçado pela revista do banheiro. “Vou ver TV no meu quarto e de lá vou pra cama. Estou exausta.”, eu disse, indo para o meu quarto, fechando a porta e torcendo para que, no baile de sábado, eu tivesse a oportunidade de conversar com o Senhor Henrique.
2 – “Problema algum, Senhor Henrique.”
Todo mês de dezembro, pouco antes do Natal, a nossa empresa alugava um salão de hotel para realizar o baile de fim-de-ano. Não apenas os funcionários da sede, onde eu trabalhava, mas também os das filiais de cidades próximas, recebiam convites, e todos faziam questão de ir, não só para relaxar em um ambiente agradável, mas também porque gerentes, coordenadores e supervisores ali se reuniam; e cada funcionário, além de aproveitar a festinha, tinha os seus próprios interesses profissionais: alguns queriam pedir informalmente por um aumento, outros queriam ser transferidos de alguma filial para a sede, onde o salário era mais elevado, e havia os que queriam pedir emprego para parentes ou amigos. Bem, como sabem, eu me encontrava neste último grupo.

Usando um vestido longo, com um decote bonito e que delineava o meu corpo, eu ficava de olho na mesa da gerência. Observei que até os demais gerentes tinham dificuldade em falar com o Senhor Henrique, que, sempre ao celular, parecia resolver coisas importantes. O Brito, que estivera me observando durante o baile, chegou até mim de surpresa. “Ganhou coragem? Vai falar com ele hoje?” “Eu ia tentar, mas ele não sai da mesa nem larga o telefone!” “Quer uma dica? Ele costuma ser um dos últimos a sair dos bailes; ele diz que é uma forma de prestigiar os encontros com os funcionários, mas eu acho que é só mais uma oportunidade pra ele encher a cara, hehehe. Enfim, fique até o final também e fale com ele a sós.” Agradeci ao Brito pela sugestão e, na falta de opção melhor, resolvi segui-la.

Agora sabendo que não era o hábito do Senhor Henrique escapulir antes da festa acabar, pude relaxar um pouco: conversei com colegas de empresa, esperei o tempo passar e confirmei que o meu chefe estava certo: à medida que os demais gerentes e alguns coordenadores se retiravam, o Senhor Henrique permanecia para se despedir de cada um deles, agradecendo-os pela presença e dizendo que esperaria revê-los ali no próximo ano.

O salão foi se esvaziando,

assim como a mesa do Senhor Henrique, mas eu ainda não sabia como abordá-lo para falar do estágio. Estava com medo de ele ir embora e eu perder a oportunidade. Foi quando o Brito novamente se aproximou de mim e, para a minha surpresa e sem explicações, me guiou pelo braço até a mesa onde agora o Senhor Henrique, sozinho, finalizava mais um copo de uísque e acendia um cigarro. Eles se cumprimentaram, trocaram amenidades, o Senhor Henrique perguntou se eu era a esposa do Brito, que, gracejando, disse que não tinha tanta sorte. Fui então apresentada ao Senhor Henrique. De perto, pude reparar que as marcas da idade se faziam notar: pele enrugada e manchada, cabelo esparso e barba bastante grisalha. “Então você é a Analista de RH da sede? Sente-se. Vamos conversar. Preciso de informações confiáveis sobre o seu setor, porque não boto fé nesse daí, hehehe!”, ele disse, apontando para o Brito e se servindo de mais uísque, aproveitando que a garrafa estava na mesa. “Eu, bem… é… acontece que…”, comecei a gaguejar. “A verdade, Senhor Henrique, é que a Helena gostaria de pedir um favor pro senhor.”, antecipou o Brito, me deixando ao mesmo tempo envergonhada e agradecida. “Vou deixar vocês à vontade pra conversar. Estou de saída. Esposa já me ligou perguntando o motivo da demora.”, Brito disse, se despedindo do Senhor Henrique com um aperto de mão, me dando um beijo na bochecha e saindo do salão. “Um favor? Pois então sente-se e vamos conversar, senhorita!”, puxando a cadeira ao seu lado. O seu celular tocou. “Um minuto.”, ele pediu, atendendo a ligação, porém apontando para a cadeira com a outra mão.

Eu me sentei, olhei ao redor, vi que alguns faxineiros começavam a aparecer no salão; uma forma não muito sutil de “expulsar” dali os convidados ainda presentes. O Senhor Henrique pareceu não se importar: ao celular, aconselhava um coordenador da nossa filial no Pará sobre como agir perante um processo que a empresa sofria por lá. Terminada a ligação, ele bebeu mais uísque, tragou o seu fedorento cigarro e quebrou o gelo: “Se o favor que você quer for um aumento, Hélen, você tem que conversar é com o Brito. Agora se for pra mandar ele embora e te colocar na gerência do RH, então está feito! Hehehe!” Não consegui conter o riso, mesmo ele confundindo o meu nome. “Não, não… Bem… eu… na verdade… eu queria um favor pro meu filho. Ele… ele vai começar o último semestre do curso técnico em informática, não consegue estágio e… e… eu pensei que talvez ele pudesse trabalhar conosco. Ele é um bom garoto e é mu–” “Isso de mãe e filho trabalhando junto não dá certo, Hélen.”, ele respondeu, secamente. “Não precisa efetivar o menino depois do estágio, Senhor Henrique. Só deixe ele lá uns três meses, até completar a carga-horária de que precisa, aprender umas coisinhas… depois liberem ele.” “Ele tentou alguma vez o processo seletivo?” “Ele… ele é bem inteligente, mas não se sai bem nesses processos. Fica muito ansioso, acho.”, menti, porque o Filipe não era tão inteligente assim nem ficava ansioso; era apenas desinteressado. O Senhor Henrique terminou mais um copo de uísque e disse, se levantando da mesa: “Vou ver o que posso fazer, mas não garanto nada. Foi um prazer, Hélen!”

Eu sabia que se ele, que era Gerente Geral, quisesse, garantiria qualquer coisa; ele estava era se desvencilhando de mim. Fui atrás dele, que já caminhava, com o seu costumeiro passo acelerado, para a saída do salão. “Senhor Henrique, por favor, eu… eu realmente gostaria que o senhor pensasse com carinho no meu pedido! Por favor!”, eu disse, chegando ao seu lado e frisando a palavra “realmente”. Porém, eu devo ter errado na entonação das palavras ou… não sei… não sei o que fiz para ser mal interpretada; ou talvez eu não tenha feito nada errado e a culpa foi do excesso de álcool no sangue dele. O fato é que o seu olhar percorreu, em uma fração de segundo, alguns pontos estratégicos (o salão praticamente vazio atrás de nós, a minha mão esquerda sem aliança, a forma das minhas pernas e cintura moldando o vestido, o meu decote agradável aos olhos e o meu rosto bonito) e, aproveitando-se de que ninguém nos observava, levou a mão até o meu bumbum grandinho e redondo, e fez um carinho nele. “Você realmente quer o garoto estagiando na sede? Realmente? Então vamos conversar até o estacionamento. Ou isso seria um problema pra você?” Não sei se enrubesci de vergonha ou empalideci de espanto, mas tenho certeza de que fiquei boquiaberta por alguns segundos, até responder: “Problema algum, Senhor Henrique.”
3- Uma troca de favores
Saímos do salão de festas, que ficava no último andar do hotel, e, no elevador, o Senhor Henrique, ao meu lado, continuava apertando o meu bumbum por cima do vestido. O ascensorista, mais dormindo do que acordado, não percebeu nada, graças a Deus. Eu nunca tinha passado por situação assim e por isso não conseguia me portar naturalmente: eu me contorcia, olhava para cima e para baixo, respirava fundo, batia repetidamente o salto no chão, tamanho o meu descontrole. O Senhor Henrique notou o meu desconforto e sorriu, o que me deixou irritada. Ele só parou de bolinar o meu bumbum para, mais uma vez, atender ao seu celular, quando o elevador já se aproximava do seu destino.

Diferentemente de quando cheguei, agora o estacionamento do hotel estava praticamente vazio; os poucos carros dali deviam ser de hóspedes, naturalmente, porque fomos os últimos a sair do salão de festas. O local era coberto, bem iluminado, extremamente amplo e, como algumas paredes tinham uma abertura na sua parte superior, rente ao teto, o vento da madrugada entrava no estacionamento e gelava os meus braços e torso nus. O Senhor Henrique, ainda ao telefone e usando paletó, não devia sentir o frio na mesma intensidade. Caminhei ao seu lado até um belo carro e fiquei ouvindo-o falar ao telefone sobre contratos que seriam assinados no norte do país se os processos contra a empresa, sobre os quais ele falara mais cedo, fossem decididos ao nosso favor.

Parada com os braços cruzados sobre o decote para tentar evitar o frio, eu observava o Senhor Henrique caminhar ao redor do seu carro: a sua voz rouca ecoava pelo estacionamento vazio e agora o assunto era valores de ações na bolsa. Eu não sabia o que pensar e optei por não pensar em nada, apenas ficar ali plantada, encostada no carro dele e torcer para não virar picolé. Finalmente, o bate-papo terminou e ele se aproximou de mim. “Você me falou do seu filho, mas não usa aliança. O casamento não deu certo?”, ele perguntou, segurando a minha mão. “Sou viúva.”, respondi, sentindo o seu hálito de álcool e cigarro. “Mas tão jovem? E ...


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