A INTIMIDADE SE FAZIA EM PALAVRAS, NA PRIMÍCIA, DAQUELE BEIJO

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A INTIMIDADE SE FAZIA EM PALAVRAS, NA PRIMÍCIA, DAQUELE BEIJO

A INTIMIDADE SE FAZIA EM PALAVRAS,
NA PRIMÍCIA, DAQUELE BEIJO

“Ficar sem você não dá
Perdi o rumo solto no mundo
Ficar sem você
Meu coração mudou de lugar
Ficar sem você não dá
Pra domar você vai mais que oito segundos
Não posso esperar
Ficar sem você aqui não dá...”

2048, do guarda-roupa envelhecido pelo tempo, Letícia apossou de um vestido bege claro, com manchas marrons, nunca mais usado. E no enlace das memórias, o vestiu, em companhia da sonoridade de versos melódicos. Soltou os poucos fios de cabelo e deu cor aos lábios. De uma sacola amarelada, retirou um antigo par de brincos. Diante do espelho, que antes refletia juventude, se viu em meio a lágrimas de recordações.
---Aqui estou...talvez...pela última vez... Alguém me visse? Não! Ninguém. (Letícia).
Fez uma procura constante, entre canetas, lápis de cor, borrachas, papéis e cadernos, sobre uma prateleira da estante. Os seus lábios, que um dia tocaram na fe-li-ci-da-de, deram um sorriso cabisbaixo, ao ver o que procurava. Um lápis, um lápis de escrever, que continha estampas de bandeiras de vários países.
---A vida...a vida por vezes, parece engraçada, ou nós é que a tornamos engraçada. O que eu fiz da minha vida, ou o que ela fez de mim?? Estão aí indagações semelhantes e de respostas opostas. Hoje me vejo no espelho, me vejo no espelho, a procura de uma parte de mim. Procurar por alguém, alguém que eu deixei ir embora, ou se foi embora. Esta dúvida faz morada até hoje, na minha alma. Poderia eu, poderia eu, ter feito alguma coisa? Na situação presente, eu não poderia fazer mais nada. Não poderia? E ele? Na sinceridade de teus sentimentos, poderia ele, ter feito mais? Na situação vivida, poderia ele, ter feito mais? Destino! Você acredita em destino? Eu não acredito em destino! Mas talvez, tenha sido o destino daquele dia. (Letícia).
As mãos de Letícia, aquelas mesmas mãos, que um dia acariciou-lhe a face, pegou o achado. Mas devido o tremor da idade e a emoção daquele momento, o lápis escapuliu, provocando um paradoxo temporal.

1998, naquele dia específico do passado, estava um tempo quente, esfriado pelas nuvens pesadas no céu a trafegar. E o cansaço, já chegava da jornada quase encerrada da tarde.
Letícia rodeada pelas crianças se dirigiu ao corredor a sentar. O piso resfriado, vermelho, fez equilibrar a temperatura interior. Crianças, pequeninas e sensíveis, ao lado, em pé e sentados. Atentas! Apertadas, enroscadas, amadas, amando. O amor e a confiança entre todos eram visto e revisto, por todos que ali passavam, ou ficavam. Entre afagos de carinhos, entre beijos e abracinhos, uma aula gostosinha começou. Diferente, diversificada, com espontaneidade e comodidade. Com discussão e opinião, foi o tempo se consumindo.
Ivan, com deveres importantes, surgiu caminhando com passos ligeiros e seguido por alunos que lhe faziam perguntas. Algo, alguém fez com que seus pensamentos parassem no tempo, naquele instante. Estagnado, ele começou a dar respostas inconscientes pelo sentimento congelado com o que via.
---E lá, estava ela! Lá estava ela, sentada no chão, rodeada por crianças! Vestido longo, tom bege claro, com manchas marrons. Mangas fofas, largas, livres. A sua fronte, trazia arte em curvas azuis e brandas. Cobrindo-lhe as costas, um camisão preto, folgado e aberto. (prostou Ivan).
Nos olhos dele, continha um brilho fosforescente...oculto...gostoso... A sua voz e o seu calçado, chamou a atenção dela. Ele era o centro das atenções, dos que os seguiam. O chefe, o líder e estava de chinelos!
Ele quis parar, só para admirá-la, os contornos dos teus lábios, mas não poderia!
---Que fascinação, que perfeita junção! Se pudesse ao menos tocá-los... (sussurrou Ivan).
Nos olhos de ambos, o brilho! O brilho comum, que reluzia o caminho, que reluzia os movimentos, os gestos, as falas, os sorrisos. Movimentos agora, nada comuns!
Sem curiosidade, com um pouco de vontade, ela ergueu seus olhos e pegou o fim dos passos dele.
---Quem era ele? Quem era ele, que deixou encanto por onde passou!? (indagou Letícia em pensamentos).
E foi assim, que aquele dia acabou.
O tempo pode passar, mas o tempo incógnito do olhar perdura a eternidade de um beijo.
Outro dia, outro momento alegre e satisfatório para os que ensinavam.
Aquele rumor no ar, os passos dela, lentos, observadores, como se o tempo voltasse atrás.
---E lá, estava ele! A magia e o encanto em uma só pessoa! Como sua harmonia era bela! Tão bela, que o meu coração se perdia, em olhares despercebidos, mas totalmente despidos do olhar dele. Aqueles segundos, aquele comportamento, a simples presença dele, já me trazia felicidade. O admirava e se ao menos pudesse tocá-lo...não faria nada em demasia. Aquela pele chocolate me excitava, molhando-me de vontades, o que deixava minha boca seca dos lábios dele. (Letícia).
Fizeram a oportunidade e houve o primeiro diálogo. Curto, mas cada palavra proferida tornou-se tatuada. Ele querendo o olhar dela e ela fugitiva do que poderá ser visto.
A cada dia, o ambiente se tornava mais sedutor. Diálogos, diálogos, diálogos sobre o tudo e o nada. Simplesmente, a intimidade se fazia em palavras.
Sorrisos comuns, olhares de afeto, até que das mãos dele, para as dela, veio um pequeno papel amarelo, com escritos em preto.
---Sua boca é perfeita. O beijo dessa boca é gostoso? (Ivan).
O interessante, é que ela nem estava de batom, com os lábios embranquecidos.
---Teria ele captado, o encanto que muitos olhares não haviam visto? Ou seria apenas um falsário elogio de conquista? (indagou Letícia em pensamentos).
A resposta dela, veio em forma de pergunta:
---Quer uma resposta na prática, ou na teoria? (Letícia).
Ele surpreso e alegre, fez surgir, um sorriso em sua face.
O dia se foi, dando origem a outro.
Na saída dela, ao final da tarde, um dos alunos dele, apurado se aproximou, pedindo um lápis emprestado. Pois o

professor, não permitia, realizar anotações relacionadas à Música a caneta. Ela sabia, que o lápis preto não voltaria mais. Mas para quem foi; nem precisa voltar.
Vieram outros bilhetinhos, ocultando a ânsia do desejo, em códigos de desenhos. No qual revelava amor ingênuo, na alegria da adolescência. Bilhetes destinados a ela, por vezes eram entregues em mãos. Ousados, espantosos, aceitos e deliciados.
Mais um dia chegou e lá veio ele, pelo corredor a bailar. Ao passar pela porta de Letícia, ela não se conteve exclamando:
---Oi Gatinho!!! (Letícia).
Ele feliz com o que ouvirá, voltou de costas para retribuir o cumprimento.
---Oi! (disse quase emudecido de emoção, em meio a sorrisos e pensamentos) Será que encontrei, alguém que pensa como eu? (Ivan).
Com o caminhar das aulas, ela tinha que sair, tinha que vê-lo, que ouvi-lo, que tocá-lo.
---O que estava acontecendo? Parece que encontrei alguém que pensa como eu! (pensou Letícia).
Conversas, sorrisos, satisfação, respeito e amor. Sempre refletidos nos olhares admiradores e observadores de ambos. Os bilhetes dela e os dele se faziam presentes.
Em outro dia, surgiu o convite dele, para um passeio; que em meio a sorrisos, foi aceito por ela. Ao o relógio marcar dezessete horas e quinze minutos, ela ansiosa foi para casa, deixando-o trabalhar com pratos, clarinete, trompete, contrabaixo, tamborim, trombone. Música!!!
Em meio a perguntas de sua mente, ela chegou em cassa.
---O que fazer em pouco tempo? Como fazer? Tenho que fazer! (pensou Letícia).
O banho, seguido de cremes, odores, batons, tons, lápis, brincos, colares e se-du-ção. Em segundos de minutos, se fez o perfeito, o afrodisíaco, o mistério, o belo, o anseio e o terno. Em vestido longo e fino, saiu noite adentro. Estava vampira e feiticeira, em uma noite de estrelas, que refletia em seu olhar.
A espera do ônibus e o seu percurso lhe causava tensão! Ao descer do mesmo, um pouco da tensão dela, foi substituída pelo encantamento. Pois lá, estava ele, de pé, alegre, lhe esperando. Que visão ela teve!
---Como é belo o seu sorriso! Como me trazia fe-li-ci-da-de! Está visão, não é para qualquer olhar! (sussurrou Letícia).
Ela o cumprimentou, em meio à justificativa pelo atraso.
Um, ao lado do outro, se deu início a uma caminhada, de passos um pouco tensos. Caminhada sem rumo, ou rumo certo, cheio de sorrisos, perguntas, respostas e elogios.
---Foi como uma força! Algo entrou pelo meu corpo, subiu para a alma e fez a carne toda estremecer! (proferiu Ivan, o que sentiu ao vê-la, pela primeira vez, sentada no chão do corredor).
---Tinha alguma coisa no seu olhar. Você sempre me olhava e eu evitava. O seu olhar era encantador. Era não! Ele é! Você deixava e trazia encanto por onde passasse e ficasse. Aquilo me chamou a atenção. Pois você se tornou diferente. Aquilo me encantou!!! (disse Letícia suspirando).
O tempo pode passar, mas o tempo incógnito do olhar perdura a eternidade de um beijo.
A sinceridade, presente em meio às palavras. Sinceridade vinda da pureza das crianças, que proporcionou a união deles.
A um determinado momento, não havia mais tensões, somente gargalhadas e cumplicidade. Na encosta obscura de um muro, sentaram-se e a conversa prosseguiu, acarretada de afeição, segurança e doçura, cravados em cada palavra proferida.
---Eu já te conheço um pouco! (Ivan).
---Como? (Letícia).
---Pela simples maneira, de você ser! De você agir! (Ivan).
---Como assim? (Letícia).
---Eu sou um homem observador. (Ivan).
---E o que você observou? (Letícia).
---O seu sorriso, é conquistador, derrubador. Os homens se perdem nele! O seu olhar é sedutor e misterioso! O simples ato, de você sentar no chão, mostrou simplicidade! E a maneira de falar com as crianças, mostrou amor. Mostrou que você tem muito amor! (Ivan).
Em silêncio, ela permaneceu emudecida, pela observação tão correta e certa de sua pessoa.
O tempo lentamente passava, quando começaram a surgir indagações e tentativas de um beijo. Ele veio e ela bloqueou. Bloqueou alegando, que já que ele era um senhor feudal, então era ela, quem deveria beijá-lo. E lá, se veio o beijo!!! In-des-cri-tí-vel, in-re-su-mí-vel! Afinal, o que foi aquilo? O que acontecia naquele momento? Com certeza, o mundo todo ao redor desapareceu, na primícia, daquele beijo. Se acabou, se perdeu, em suas respirações ofegantes! E foi o beijo, aquele beijo! E assim, foi concretizado, o enlace dos sentimentos!
Afeição, afeição! O afeto gerou a união, de suas almas, em um sentimento sublime, que é o amor.
Este beijo, a fez sentir, o que ele sentiu, quando a viu pela primeira vez, sentada no chão (“Foi como uma força! Algo entrou pelo meu corpo, subiu para a alma e fez a carne toda estremecer!”).
Essa noite se foi. Chegou mais um dia de trabalho e lá, estavam eles. Radiantes, brilhantes, amantes. O sorriso de um, era o reflexo do sorriso do outro.
Ela sabendo de sua presença tão perto, não se conteve, ficando mais fora da sala, do que dentro. As crianças a rodeava, facilitando a sua aproximação sem suspeita.
Um único beijo, a fez sorrir por três dias seguidos.
O sorriso dele brilhava mais que o sol, que envergonhado, se escondia atrás das nuvens.
No decorrer da semana, em um dia, que seria como outro qualquer; já quase no final da aula dela, uma das coordenadoras, chega a sua porta.
---Letícia, telefone pra você.
---Pra mim? Quem será? Não espero telefonema de ninguém! (Letícia).
Passos indecisos, pensativos. Pessoas vinham em sua mente, menos, quem era realmente.
---Alô! (Letícia).
---Letícia?
---Exato! Quem gostaria? (Letícia).
---Você não adivinha!?
---Ah, vamos conversar um pouquinho, que eu adivinho. (Letícia).
---É alguém que gosta de lhe fazer perguntas e que não consegue esquecer o seu beijo.
---Ah, é você professor!? (Letícia).
---É! Eu gostaria que você falasse para os meus alunos, que eu não vou dar aula hoje. (Ivan).
---Ah, não! Então, eu não vou ver a cor dos teus olhos hoje? (Letícia).
---Eu não vou ...


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