Cleusa: a descoberta da submissão

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Cleusa: a descoberta da submissão

– DOM GRISALHO –
Este conto não é de minha autoria, mas Eu o achei com uma qualidade excelente, muito superior à média dos contos de sadomasoquismo. Procurei na internet o autor e não encontrei. Espero que gostem…

Faz um ano que Cleusa se mudou para aquele apartamento. Recém aprovada no vestibular da Federal, aceitara de bom grado viver no apartamento da sua tia avó materna, que há muito havia trocado o escaldante verão e o congelante inverno porto alegrense por alguma cidade do sudeste brasileiro.

A cidade grande, viver sozinha, a faculdade, ter de crescer, tudo lhe dava medo. Logo na primeira semana conheceu João, ainda no hall de entrada do prédio. Chegava atrapalhada, com sacolas de compras e livros de estudos, e ele prontamente se dispôs a ajudá-la. No elevador descobriram-se vizinhos de andar, e no corredor, de porta. Aparentava ter 10 ou 12 anos a mais que ela, “se bem que de terno e gravata todo mundo aparenta mais”, pensou. Passaram a cumprimentar-se e trocar algumas palavras, mas nada além disso.

Uma noite, quando já se preparava para dormir, escutou ruídos estranhos. Pareciam tapas, pancadas, bofetões ou algo do gênero. Desligou a televisão e tentou decifrar o que ouvia. Sim, só poderia ser tapas. E cada ruído era seguido de um gemido abafado. Ouvia às vezes a voz de um homem, mas não conseguia entender o que ele falava. Pensou em interfonar para o porteiro, relatar o que estava acontecendo, mas acabou desistindo. Melhor não se meter. Ligou a televisão novamente e aumentou um pouco o volume para não escutar mais nenhum outro som.

Duas ou três noites depois, ouviu novamente o barulho. Desta vez não conseguiu deixar de ficar prestando atenção. Não ligou a televisão, não fez nada. Ficou escutando apavorada aquilo que ela jurava ser um ato de violência doméstica. Tinha de descobrir de onde vinha, e depois fazer uma denúncia anônima.

Seu medo da cidade grande ficara ainda mais acentuado. Mal saía na rua, embora o que mais lhe impressionava estava dentro do prédio em que morava. O barulho se repetia sempre, no mínimo duas vezes por semana.

Encontrou João certa manhã, e chegou a pensar em comentar aquilo tudo com ele. Parecia ser uma pessoa séria, e que poderia ajudá-la a descobrir, mas não teve coragem. E além do mais, pouco sabia dele. E se fosse ele a pessoa violenta?

No apartamento tinha um quarto em que ela nunca entrava. Lá ficavam as coisas pessoais da sua tia avó, caixas e mais caixas de livros, armários cheios de roupas de inverno. Era quase que uma regra implícita no empréstimo do apartamento: aquele quarto era “proibido”. Só a faxineira entrava, uma vez por semana, toda quinta feira.

E foi em uma quinta feira que ela chegou a casa, depois da aula, e dividiu o elevador com João e provavelmente a namorada dele. Uma moça bonita, cabelos negros ondulados, corpo esculturalmente lindo, o que deixava claro o vestido colado e decotado que ela usava. Cumprimentou-os, e João retribui com sua simpatia habitual. A moça murmurou um cumprimento, e manteve os olhos baixos. “Que antipática!”, pensou.
Entrou em casa, fez um lanche na cozinha, tomou um banho demorado. Sentia saudades da família, dos amigos, da vida que levava na

cidade do interior. Saiu do banheiro enrolada na toalha, e viu que a faxineira havia deixado aberta a porta do “quarto proibido”. Foi até lá para fechar a porta, e então escutou novamente o som que tanto a incomodava. Parecia que dali, naquele quarto, era mais claro, mais perto de aonde vinha.

“Sim Senhor, me desculpe”, ela ouviu uma voz feminina dizer. E em seguida sons de tapas. Não, não poderiam ser tapas. Parecia algo mais forte. Mas tinha uma música também, que não deixava tudo tão claro. Chegou mais perto da janela, a tempo de escutar, depois de um daqueles sons, a voz feminina agradecer: “Um. Obrigado, Senhor”. Mais um som, e depois: “Dois. Obrigado, Senhor”. O que era aquilo? Não era um abuso? Era tortura? O que a mulher poderia ter feito de tão grave para estar sendo punida, e ainda, pelo visto, sendo obrigada a agradecer por isso.

Quando a contagem da voz feminina chegou a cinquenta, Marina saiu dali. Fechou a porta do quarto e foi deitar confusa. O que era aquilo?

Mais uns dias se passaram, e Cleusa encontrou novamente com João. Dessa vez, no supermercado do bairro. Praticamente se esbarraram nos corredores, ela com o carrinho cheio de comida pré-pronta, e ele sem carrinho nenhum. Apenas com uma coleira na mão. Trocaram algumas palavras, e ela comentou que nunca tinha o visto com um cachorro. Não notou o desconforto dele, e também nem se deu conta quando ele lhe deu a desculpa ridícula de que estava pensando em comprar um. Estranho, pois ninguém compra primeiro a coleira, e depois o cachorro.

Naquela noite saiu para um churrasco com os colegas de faculdade, e encontrou João novamente. Ela saindo do prédio, e ele entrando. Dessa vez com outra mulher, não menos bela que a outra. Mas os longos cabelos loiros e o casaco que ela vestia, não deixaram Cleusa ver a coleira que ela usava, aquela que João comprara no supermercado.

Com o final do semestre e a época de provas se aproximando, Cleusa se concentrou nos estudos, e praticamente deixou de lado os ruídos semanais que tanto lhe intrigavam. E deixou João de lado também, afinal já o vira com três mulheres diferentes, e agora praticamente detestava-o. Achava ele um galinha safado!

As férias de inverno chegaram, e Cleusa foi para a cidade natal. Passou quinze dias lá com a família, sendo mimada, bem tratada, comendo comida de verdade, preparada por sua mãe. Reviu amigos, contou as experiências da cidade grande para as amigas de infância, parecia que nunca tinha saído de lá.

Mas a vida continua, e no final de Julho Cleusa voltou para Porto Alegre. E quando desceu do táxi que a trouxe da rodoviária, encontrou João.

– Oi! Por onde tu andava? – ele perguntou.

– Estava de férias, na minha cidade. – ela respondeu, sentindo-se estranhamente feliz por ele ter notado a falta dela.

Trocaram mais algumas palavras, e combinaram de conversarem mais. Ela largou as malas no apartamento, desanimada com a idéia de ter que desfazê-las, e escutou um barulho no corredor. Foi até o olho mágico ver o que era, ela esperançosa querendo ardentemente que João quisesse falar mais alguma coisa, mas logo o sorriso se desfez em seu rosto. Uma ...


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