Um macho muito ciumento

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Um macho muito ciumento
- Basta! – o grito fez todo o seu corpo tremer. Não era apenas uma palavra para encerrar a discussão. O tom de voz dele vinha carregado de ameaça, e foi isso que o assustou, enquanto terminava de se enxugar, no quarto, depois do banho onde o confronto se iniciara.
Quando percebeu que ele avançava em sua direção, o temor fez com que tentasse se esquivar da mão pesada que o atingiu no lado esquerdo do rosto, desequilibrando-o e fazendo com que caísse sobre a cama, na altura da peseira, e evitando que o dano fosse maior. As lágrimas brotaram de seus olhos no mesmo instante, profusas e resignadas. Mas que semearam nele a ideia de abandonar aquela vida que, até então, preenchera de felicidade cada minuto de sua existência.
- Basta! – vociferou colérico, ao mesmo tempo em que a ira fazia uma cortina vermelha descer diante de seus olhos. Ao avançar sobre aquele corpo nu e sedutor que a pouco o saciara, tomado de uma fúria taurina, não pensou na dimensão que sua dominação estava tomando.
Sua mão cerrada enquanto tentava se controlar, se espalmou sobre aquele rosto de traços harmônicos com força desmedida. E, apenas quando viu as lágrimas submissas banhando aquele rosto que tanto amava, o arrependimento por seu destempero mortificou sua alma. Começava no seu íntimo uma batalha entre o macho dominador que era e seu calcanhar de Aquiles, que se traduzia pelo sofrimento infringido ao amante.
O desfecho inédito daquela cena, depois de cinco anos de vida em comum, começara três dias antes, quando Lucas fez o comentário, enquanto tomavam o desjejum, de que restavam dois dias para confirmarem a presença no casamento da prima. O humor do Haroldo estremeceu no mesmo instante, e ele achou que um simples ‘não vamos’ fosse o suficiente para que sua vontade fosse obedecida, como de costume, sem que maiores explicações fossem necessárias.
Embora a família do Lucas o encarasse como um fato consumado, e se preocupasse muito mais com a felicidade do filho do que com sua presença, chegando mesmo a aceitá-lo amistosamente, ele ainda se sentia um intruso. Especialmente durante essas reuniões familiares. Talvez por sua origem bem menos abonada que a daquela família, que nem mesmo sua condição atual de empresário em franca escalada conseguia dirimir. Talvez por que invariavelmente teria que se encontrar com o primo do Lucas, alguém que ele asseverava sentir um tesão pouco disfarçado por seu companheiro, e do qual sentia um ciúme doentio e infundado.
O que levou Lucas a persistir no questionamento deles comparecerem ao casamento foi o fato de nutrir uma afeição especial pela prima, que considerava como uma irmã, uma vez que, de fato, só tinha dois irmãos homens, e mais velhos do que ele. E, cujo entrosamento, começara quando moravam a poucas quadras um do outro durante a infância e adolescência. Ele sabia que Haroldo tinha reservas quando o assunto era participar de encontros daquele tipo, mas eles se amavam tanto, que ele achava que o companheiro tivesse superado aquele constrangimento inicial, e estivesse seguro de sua posição dentro da sua família. Por isso continuou a insistir tentando vencer a turrice do amante. Coisa que ele por sua índole carinhosa e submissa raras vezes protagonizava. Não era de seu feitio desafiar as vontades do Haroldo, a quem reconhecia como seu macho e a quem ele obedecia de boa vontade e resignadamente. Desde o inicio da relação ele o idolatrou por sua postura firme e decidida, por seu porte másculo e determinado, e na medida em que foram se conhecendo, ele soube que era aquele macho que ele queria amar e servir.
Por outro lado, na primeira vez em que seu olhar cruzou com o do Lucas, Haroldo sentiu suas convicções de machão estremecerem. Até então seus relacionamentos com mulheres seguiam aquele padrão confortável e previsível. Afinal, elas são naturalmente inferiores e, portanto, submissas, devendo aceitar as condições impostas pelo homem. Mas tudo isso mudou quando um grupo de amigos o apresentou àquele belo e jovem engenheiro, de corpo escultural, sorriso amplo e afetuoso, cujo jeito atencioso parecia distribuir carinho a todos que encontrava. Havia algo por trás daquele olhar doce que repercutiu em seu peito e inquietava sua rola dentro das calças. Ele procurou obstinadamente se aproximar dele. Chegou a arquitetar estratagemas para chegar mais perto dele, e se sentiu plenamente recompensado no dia em que seu cacete se alojou naquele cuzinho apertado e foi agasalhado com ternura e meiguice ímpares. Desde então não conseguia se imaginar sem aquele sentimento que Lucas lhe presenteava aos borbotões, e tratou de assegurar que apenas ele usufruísse dessa dádiva.
Enquanto o relacionamento deles se consolidava e ganhava importância, essa polaridade foi se construindo de maneira sutil. Lucas se sentia amparado por aquele jeito meio mandão de ser que Haroldo esboçava. Não era nada agressivo, pois ele sabia impor seus desejos e se mostrava reconhecido e gratificado quando os tinha realizados. Satisfazer seu macho tornara-se sua missão, e a felicidade que isso lhe proporcionava só era superada pela alegria estampada na expressão quase sempre sisuda do amado. Haroldo nem de longe se imaginara um dia estar recebendo tanta afeição e amor de um homem como aquele, que parecia viver em função da sua vontade. Ele se sentiu ainda mais macho, um líder, dono do poder. Toda vez que Lucas gemia de dor e prazer debaixo dele, seus brios exultavam de satisfação preenchendo aquele cuzinho com sua porra viril e abundante, que o namorado guardava em suas entranhas como se fosse um tesouro.
No entanto, diante daquele corpo liso e extremamente atraente, que sacudia entre soluços contidos sobre a cama que testemunhara incontáveis momentos de luxúria e devassidão, ele se deu conta de que havia ultrapassado um limite perigoso. Arrependeu-se de imediato, mas não sabia como voltar atrás. Ceder à proposta pareceu-lhe uma fraqueza. Desculpar-se, um ato pouco ortodoxo. Tomá-lo em seus braços e reconforta-lo, uma temeridade que poderia ser rechaçada, e era disso que tinha mais receio, de um dia perder aquele amor puro e dedicado. Pela primeira vez na vida ele não soube que atitude tomar, e isso o desconsertou. Vestiu a bermuda do pijama, pois até aquele momento estava com a pica desassossegada querendo dar continuidade à lascívia que aquelas preguinhas tenras lhe proporcionaram durante a ducha, e saiu do quarto, imaginando encontrar uma solução longe dali. Não só não a encontrou, como aquela opressão, que sufocava seu peito, parecia se agigantar, enquanto os pensamentos fervilhavam em seu cérebro. Por que chegara a tanto? Por que ferira a quem tanto queria proteger? Se tudo o que Lucas sempre lhe deu foram razões de que o respeitava e amava como seu macho dominador.
O dia amanheceu com um sol pálido e estava um pouco frio. Eu não havia entrado debaixo do virol e a cama não havia sido desfeita. Meu corpo nu jazia numa posição quase fetal, e minha pele estava arrepiada devido ao frio. A única coisa que ardia era o lado esquerdo do meu rosto. Levei a mão até ele e senti as lágrimas umedecendo e embaçando minha visão. Não vi ninguém através da penumbra do quarto, e a casa estava mergulhada num silêncio só interrompido pelos sabiás cantarolando na jaboticabeira florida do quintal. Minha pélvis parecia ter sido estocada por uma britadeira, e na intimidade do meu cuzinho uma turgidez gosmenta me recordou que eu estava cheio de porra. O cheiro dele continuava impregnado em mim. Senti uma necessidade urgente de mijar e fui cambaleando até

o banheiro ao lado. Nunca gostei de me ver no espelho quando acordava, mas hoje esse desgosto foi maior. Lá estavam quatro vergões avermelhados marcando meu rosto imberbe, testemunhas de uma violência gratuita, e por isso tão dolorosos. Um pouco de sêmen dele, já bastante fluido, escorreu pelo meu rego. Enquanto eu o perdia assim, sem controle, como nunca havia acontecido antes, eu comecei a chorar, apoiado na bancada da pia encarando meu rosto transfigurado, e todo o sofrimento pelo qual estava passando. De repente, o espelho passou a refletir duas imagens. Ele se aproximou de mim e conteve um gesto de me abraçar, como se temesse minha repulsa. A expressão de sua face era séria e contrariada. Eu podia ler a angústia em seus olhos e, pela primeira vez, eu vi aquele gigante colossal de um metro e noventa de altura e mais de cento e dez quilos de músculos proeminentes, titubeando para executar uma ação.
- Você não devia ter me desafiado. – disse cauteloso, como se todo aquele episódio nefasto tivesse sido culpa minha.
- Eu nunca te desafiei. Apenas insisti achando que você cederia ao meu apelo se eu o fizesse cheio de dengo. – retruquei magoado.
- Você sabe como eu me sinto quanto se trata de enfrentar toda a sua família de uma só vez. E, principalmente, de ter que me fazer de cego para as investidas aquele seu primo descarado que te devora só de olhar. – justificou-se, como se estivesse sendo condescendente comigo.
- Não seja irônico! O assunto aqui não é esse. Estamos falando do que você me fez ontem à noite. – continuei, exibindo-lhe o rosto ferido.
- Não tive a intenção de te machucar. – disse, engolindo as palavras e desviando o olhar, pois sentiu novamente aquela sensação de remorso crescendo dentro dele.
- Fico imaginando se tivesse tido, então. Hoje eu estaria todo quebrado no leito de um pronto-socorro! – exclamei inconformado.
- Quem está sendo irônico agora é você. Eu jamais faria uma coisa dessas com você. – revidou, tomando ares de superioridade.
- Foi o que eu sempre pensei, até ontem. Agora tenho as minhas dúvidas. – confessei. – E não sei se consigo viver com esse receio me rondando a cada vez que você se sentir contrariado. – continuei, lançando uma suspeita que eu mesmo não sabia que dimensão atingiria.
- O que você está querendo me dizer com isso? – perguntou atemorizado. – Sei que você está zangado comigo no momento, mas isso vai passar. – emendou, tentando dar sentido e razão a seu ato perverso.
- Exatamente aquilo que você ouviu. Que eu estou com medo de você. – respondi, seguro dos meus sentimentos. – E eu não estou zangado com você, eu estou me sentindo ultrajado, humilhado diante de você, e não sei se isso passa com essa facilidade que você está apregoando. – concluí magoado.
- Só não faça nada do que pode se arrepender depois! – exclamou, procurando dar leveza às palavras para camuflar a ameaça que elas transportavam.
- Eu estou aqui, diante de você, com as marcas da sua incompreensão, as lágrimas testemunhando minha dor, sentindo seu esperma se esvaindo pelo meu rego, e você continua impávido me ameaçando, como quer que eu me sinta em relação a você? – desabafei com a voz chorosa.
- Não estou te ameaçando. Viu como você está fragilizado, não está conseguindo interpretar nem as minhas palavras. – revidou.
Assim que ele saiu para buscar algo para almoçarmos, eu arrumei rapidamente algumas roupas, e deixei um bilhete dizendo que passaria uns dias na casa dos meus pais. Meu quarto continuava lá, sem grandes transfigurações e isso restabeleceu minha segurança. Não entrei em detalhes sobre nossa briga, nem tão pouco sobre a agressão do Haroldo, pois isso teria determinado uma ação drástica por parte do meu pai, que provavelmente levaria o caso à justiça, e uma reação imprevisível por parte dos meus irmãos mais velhos que seguramente revidariam a agressão com mais violência. Se um dia houve resistência por parte deles em aceitar meu relacionamento com o Haroldo, essa minha volta plantou, no mínimo, uma semente que lançava dúvidas quanto à continuidade daquela felicidade que eu experimentara ao lado dele. Mas ninguém me torturou com esse assunto, antes ficaram contentes por eu estar novamente em casa. Afinal, todos achavam que eu era muito novinho para não estar ali, a despeito dos meus vinte e oito anos.
Pouco depois de haver deixado nossa casa, enquanto dirigia para a dos meus pais, o celular tocou por duas vezes seguidas e na tela aparecia o rosto sorridente do Haroldo, uma transposição de uma fotografia que eu tirara dele durante nossas últimas férias de verão a bordo de uma escuna em Angra dos Reis. Não atendi nem retornei a ligação. Houve mais cinco durante toda aquela tarde, e pouco antes de eu colocar um livro que encontrei na estante do escritório sobre a mesa de cabeceira, o celular indicou a entrada de uma mensagem dele – AMOR, ME DESCULPE. AMO VOCÊ E SINTO SUA FALTA. ESTOU TE ESPERANDO, BEIJO. – a princípio hesitei em responder, mas depois enviei a resposta – BOA NOITE!
Dez dias depois fui ao casamento acompanhado dos meus pais. Houve alguns buchichos a respeito da ausência do Haroldo, principalmente daqueles familiares mais velhos e pouco afeitos às novas mudanças sociais, enfim nada, e nem ninguém, que merecesse minha atenção. Foi com prazer que reencontrei um amigo e vizinho de infância da minha prima. Era um garoto divertido, filho único de um casal americano que morava no mesmo condomínio que nós. Nunca mais tive notícias dele depois que foi cursar a faculdade nos Estados Unidos. Havia se tornado um homem corpulento e massudo, sonho e desejo de qualquer mulher com mais de quinze anos, e quem sabe de quem mais. Estava um pouco mais comedido com os anos, mas seu espírito expansivo e divertido continuava vivo e ganhara as sutilezas e a esperteza da idade. Ficou visivelmente contente por me reencontrar, e não se mostrou acanhado ao tecer comentários, quase ao pé do ouvido, sobre a transformação que meu corpo vivenciara durante o tempo que não nos vimos.
- Larga a mão de falar besteira! Os garçons deveriam ser prevenidos para não te servir mais nenhuma dose de uísque! – exclamei perplexo, depois de ele sussurrar no meu ouvido que só havia visto uma bunda tão gostosa em revistas pornográficas.
- Mas eu até agora não coloquei nenhuma gota de álcool na boca! – devolveu apressado. - E juro que não estou exagerando nos meus elogios. – acrescentou, ajeitando o cacete e esboçando um riso safado.
Revi outros conhecidos e me diverti a beça numa rodinha animada, onde relembramos episódios passados, antes de reencontrá-lo num dos ambientes onde acontecia a festa. Ficamos conversando demoradamente sobre seus planos de voltar definitivamente para o Brasil, sendo interrompidos esporadicamente por alguém que vinha me cumprimentar ou pelos garçons que circulavam entre as mesas. Quase no meio da festa é que notei a presença do Haroldo vasculhando o ambiente com o olhar a minha procura. Meu coração disparou no mesmo instante, e não consegui esconder um sorriso de satisfação pela presença dele. Assim que ele me viu, caminhou ao meu encontro, tinha uma expressão serena e altiva. Enquanto meu coração quase saia pela boca, eu sentia o maior orgulho dele vestindo aquele smoking bem talhado que ressaltava seus ombros largos e aquele andar decidido que exibia suas coxas potentes. Por pouco não cometi uma gafe, dizendo ao meu interlocutor que aquele ...


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